Vende-se o almoço

 

 

O governo de Minas Gerais recorre a ultrapassadas práticas de gestão para tentar lidar com sua grave crise econômica. Atolado em dívidas, sem recursos para garantir o pagamento do funcionalismo e vazio em projetos de desenvolvimento, Fernando Pimentel decidiu vender propriedades públicas em busca de algum fôlego financeiro. O governador criou fundos imobiliários para comercializar o patrimônio dos mineiros e classifica a medida como uma forma “inteligente” de utilizar os ativos do estado. Na verdade, Pimentel apenas criou uma roupagem nova para a velha e perigosa estratégia de vender o almoço para garantir o jantar.

Ainda que os investimentos feitos na Cidade Administrativa sejam polêmicos e discutíveis, abrir mão de equipamentos públicos para bancar os prejuízos da incompetência administrativa é, no mínimo, uma traição ao povo e um flagrante desrespeito à história de Minas e às tradições políticas do nosso estado. A pouco mais de um ano do final do mandato, Pimentel corre desesperado atrás de saídas para não entregar o governo com as contas negativas e se comprometer com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mesmo que isso signifique mais perdas ao patrimônio público.

O cálculo para comprovar o equívoco da proposta é muito simples. A expectativa do governo, segundo a imprensa, é embolsar R$ 4 bilhões com os fundos. De acordo com o próprio Pimentel, somente a folha do funcionalismo custa R$ 3,2 bilhões mensais. Ou seja, a arrecadação esperada com as vendas de imóveis cobre apenas um mês dos salários. Depois disso, ficaremos sem as propriedades e continuaremos com recursos insuficientes para pagar as contas básicas.

A situação de Minas é inaceitável. A recessão econômica afetou o país como um todo, mas ela é especialmente cruel com os estados mais pobres, com limitada capacidade de gerar receitas. No entanto, esse não é o nosso caso. Minas Gerais tem o 3° maior Produto Interno Bruto (PIB) do país, regiões altamente produtivas e com grande potencial de desenvolvimento, como o Triângulo Mineiro, a Zona da Mata e a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ainda assim, temos a 2ª pior situação financeira do país, de acordo com estudo apresentado pela Fierj (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) no início de abril.

É evidente que as circunstâncias são desfavoráveis a todos os gestores públicos brasileiros. A queda de receitas em função da crise federal é inevitável. Mas o momento delicado pelo qual passa Minas Gerais está mais vinculado às escolhas erradas do governo estadual do que à paralisia econômica nacional.

O estado já representou a vanguarda da política nacional: sua produtividade e a força serviram de exemplo e inspiração para outras regiões durante a história do Brasil. Hoje, entretanto, o governador Pimentel está de pires na mão e raspando os cofres públicos para manter serviços essenciais em funcionamento.

De nada adianta culpar gestões passadas e a crise internacional pela calamidade do estado, como faz o governo atual. Quem se dispõe a disputar uma eleição para administrar Minas Gerais deve estar preparado para enfrentar qualquer situação, com coragem e propostas realistas.

Perto de completar três anos no poder, até o momento Pimentel não fez qualquer esforço para controlar e reduzir os gastos de sua gestão. Não apresentou nem seguer um plano sequer de desenvolvimento para compensar as perdas dos setores econômicos mais afetados pela crise. Muito menos incentivou a geração de negócios ligados ao desenvolvimento tecnológico e dos meios de comunicação, a chamada nova economia, que se mantém em expansão no mundo todo.

O maior problema dos gestores brasileiros tradicionais, entre eles Fernando Pimentel, é estarem presos ao século 20, tanto no discurso quanto nas práticas. São incapazes de enxergar as particularidades da sociedade moderna e acabam perdidos com seus métodos ultrapassados.

A era digital exige, e permite, total transparência e rígido controle dos gastos públicos. Ela alterou os padrões de relações humanas, inclusive para os mecanismos democráticos, e gerou possibilidades inimagináveis até alguns anos atrás. Um governante realmente inovador explora este novo mundo determinado a encontrar ferramentas de gestão e alternativas econômicas que o auxiliem diante de uma crise.

Mas tudo o que Pimentel fez até agora foi lamentar e barganhar por recursos em Brasília. A única ideia que surgiu de seu gabinete é um retrocesso flagrante e representa um crime contra o patrimônio público.

 

Júlio Delgado – Deputado federal pelo PSB-MG

Publicação: 23/08/2017 – Estado de Minas