Quatro anos perdidos no Brasil

”A grave crise política está longe de chegar ao fim. Cada descoberta de falcatruas acelera o país em direção ao retrocesso, o que não é bom para ninguém. O jornal O Tempo publicou reportagem, nesta segunda, mostrando que os últimos quatro anos foram perdidos. Em entrevista, disse que foram os anos mais difíceis desde que estou em Brasília.”

Quatro anos perdidos no Brasil

Após manifestações de 2013, classe política caiu em descrédito e denúncias sacudiram o país

Protestos em 2013 iniciaram o calvário da classe política, que até hoje enfrenta forte rejeição popular

O Brasil enfrenta uma crise política sem precedentes há quatro anos. Manifestações populares contra o governo, falta de credibilidade da classe política, eleições presidenciais tumultuadas, operações da Polícia Federal que prenderam vários políticos, impeachment, delações premiadas, presidente acusado e, em meio toda essa turbulência, nada de relevante para a sociedade foi discutido.

Na Câmara Federal, o que mais se viu nesses últimos anos foram parlamentares trabalhando em pautas do Executivo e quase nada em projetos de lei de interesse do cidadão. Segundo o deputado federal Saraiva Felipe (PMDB), que já exerce o seu sexto mandato, esse tem sido o momento mais difícil visto em sua carreira. “A radicalização política que vemos nas ruas está presente dentro da Câmara também” conta. O deputado afirma que a insegurança política “empobreceu a vida legislativa”. “Vamos ficar devendo porque a agenda legislativa tem sido paupérrima”, diz.

O deputado federal Júlio Delgado (PSB) concorda que esses são “sem dúvida, os anos mais difíceis na legislatura”. “A maior parte do tempo, em vez de trabalhar em pautas de interesses da sociedade, tive que trabalhar em questões de postura ética e política. Esse é um momento de deterioração da classe política”, diz.

Delgado explicou que uma das funções de um parlamentar é fiscalizar o Executivo, e criticou a postura de alguns deputados. “Com tantas negligências do Executivo não sobra muito tempo para exercer as outras funções. E ainda, para piorar, alguns colegas meus do Legislativo ainda colaboram com essas negligências”, conta.

O começo da crise. O cientista político Malco Camargos, da Puc-Minas, explica que o início da crise política se deu antes das manifestações de 2013, na época da Copa das Confederações, quando já havia uma dissonância sociedade em relação ao governo. “Os políticos eram bem avaliados pela população e as políticas públicas, não”. Segundo Camargos, os brasileiros se questionaram: “como o governo consegue resolver todos os problemas para a Copa do Mundo e não consegue resolver problemas como os de saúde, educação e segurança?”.

No ano seguinte, o país passou por uma eleição polarizada, em que Dilma Rousseff (PT) saiu vitoriosa. “As pessoas elegeram uma presidente com uma narrativa à esquerda, das políticas que ela e o PT implementaram, mas quando ela se tornou presidente, ela assumiu um outro discurso”, analisa o cientista político Paulo Roberto Figueira, da UFJF.

Segundo Figueira, isso gerou um enfraquecimento da então presidente, o que acabou no processo de impeachment. “Dilma começou a perder apoio dos segmentos, da base aliada e ficou exposta à oposição, gerando instabilidade em seu governo. Assim, acabou sofrendo um impeachment”, diz.

Nesse contexto, Michel Temer (PMDB) assumiu o governo, o que gerou insatisfação popular. “Ele aproveitou que estava no poder, e apresentou uma agenda de reformas, que se fossem apresentadas em uma eleição, jamais o elegeriam”, diz Figueira.

Nesse período, a operação Lava Jato ganha destaque com denúncias que atingem políticos de diversos partidos e empresários brasileiros de vários setores. A operação puxou um novelo que escancarou a corrupção, resultou na prisão e em denúncias contra políticos de quase todas as legendas, o que alavancou ainda mais a crise, inviabilizou as reformas que o país precisa e monopolizou as atenções da nação por quatro anos.

Fonte: Valor Econômico – PUBLICADO EM 26/06/17