No olho da tempestade

Por Júlio Delgado, deputado federal pelo PSB-MG

O Brasil está às vésperas de viver mais uma traumática experiência política. Para explicar a situação de maneira bastante direta, podemos dizer que nossa realidade merece tanto otimismo quanto o anúncio de uma tempestade. E sem mudança de rumo, nosso futuro pode ser tão sombrio e nebuloso quanto os dias que ficam para trás.

A denúncia contra Michel Temer avança na Câmara dos Deputados na medida em que sua base política se desfaz, sob forte pressão popular e índice de aprovação de 5%, o mais baixo desde a redemocratização do Brasil, há 31 anos. Segundo a pesquisa CNI divulgada na quinta-feira (27), Temer tem 70% de reprovação, o que dificulta ainda mais a sua permanência no cargo até 31 de dezembro de 2018. Temos hoje um “morto-vivo” no Planalto que, em apenas 50 dias, segundo reportagem do GLOBO, de 27 de julho, liberou R$ 3,9 bilhões para emendas parlamentares com o claro objetivo de adular deputados e tentar barrar a investigação contra ele, por corrupção, que será votada na Câmara na semana que vem. Confirmado esse afastamento, teremos o terceiro presidente da República em um único mandato.

Para dramatizar ainda mais o cenário, Rodrigo Maia, substituto legal de Temer, não foi eleito democraticamente para a função e assumirá a responsabilidade de enfrentar a maior crise econômica de nossa história, por pelo menos seis meses, sem possuir qualquer experiência administrativa. Além disso, o parlamentar do DEM do Rio de Janeiro e atual presidente da Câmara também foi citado e acusado de corrupção em casos ligados à operação Lava Jato.

Ou seja, nesse continuísmo oferecido pelas circunstâncias, atolamos na lama da crise política e estamos vendo as soluções para o desequilíbrio econômico ficarem cada vez mais distantes. Apesar do discurso em favor das reformas, o que realmente mobiliza grande parte das atuais lideranças do país é salvar a própria pele nas investigações criminais.

A chapa Dilma-Temer perdeu o direito de governar em função de erros cometidos durante os mandatos conquistados conjuntamente. Pelos mesmos motivos, o Congresso Nacional se mostrou ilegítimo para tomar decisões em nome do povo brasileiro. Sobram acusações e suspeitas sobre grande parte dos parlamentares.

Considero um grave equívoco, inclusive de parte da imprensa, defender a tramitação das reformas no Poder Legislativo como uma espécie de salvação para o Brasil. Estamos vivendo em meio ao caos e, nesse contexto, é impossível resolvermos as crises política e econômica ao mesmo tempo.

Além disso, a Lava Jato expôs outra verdade sobre o Congresso que precisa ser considerada: pelo menos metade dos deputados e senadores da atual legislatura foi eleita com campanhas patrocinadas por grandes empresas. O compromisso deles é com os interesses dessas corporações, não com a imensa maioria de nossa população: os trabalhadores. Esse debate, portanto, está claramente viciado.

Desde o declínio do governo Dilma Rousseff faço parte do grupo que defende o chamado “Nem, Nem – Nem Dilma, Nem Temer”. E a cada dia que passa, essa opção se confirma como a mais racional e mais saudável para o país. O Brasil precisa de eleições gerais, já!

Reafirmo que abro mão do restante do meu mandato para definirmos nas urnas os devidos rumos do Brasil. Vou para as ruas novamente, apresentar minhas ideias e opiniões sobre a reforma da previdência, sobre as leis trabalhistas e as regras eleitorais, entre outras. E caberá ao povo decidir quais caminhos vamos seguir. Isso sim é democracia. Se as soluções para as crises e o futuro do Brasil continuarem a ser decididas nos conchavos de Brasília, distantes da população, a tormenta que se aproxima tende a ser mais violenta.