CPI vê indícios de crime em desastre de Brumadinho

A CPI de Brumadinho ouviu, nesta terça-feira (14), técnicos ligados às operações da Mina de Córrego do Feijão em Brumadinho – MG, de propriedade da Vale, que se rompeu em 25 de janeiro matando centenas de pessoas e destruindo o meio ambiente. Na última contagem realizada pelo Corpo de Bombeiros de MG, 240 vítimas haviam sido identificadas e outras 32 pessoas permaneciam desaparecidas 108 dias após o ocorrido.

Assim como as demais audiências programadas, o objetivo foi reunir dados para as investigações realizadas pela Comissão instalada em maio, na Câmara, que pretende identificar as possíveis causas e os responsáveis pelo ocorrido.

Foram quase sete horas de oitivas com representantes da Agência Nacional de Mineração – AMN, mineradora Vale e TUV SUD, consultoria responsável pela emissão do laudo de estabilidade da barragem cerca de quatro meses antes do acidente. Os convocados eram ligados às atividades de atestar, garantir e fiscalizar a segurança da atividade de mineração.

Questionada por não cumprir adequadamente seu papel institucional, o representante de fiscalização de barragens da Agência Nacional de Mineração em Minas Gerais (AMN/MG), Wagner Araújo, informou que o trabalho de fiscalização in loco era impossível, pois a Agência possui somente três fiscais para resguardar a segurança em 350 barragens no País.

Mineradora conhecia irregularidades

Segundo o engenheiro de Recursos Hídricos da Vale, Felipe Rocha, a Vale foi alertada sobre a situação da barragem, avaliada tecnicamente por ele como em “nível de atenção”, porém sem indícios de risco de rompimento imediato. Ele afirmou não ter recebido diretrizes estratégicas da Diretoria da empresa ou ser informado a cerca das providências que seriam tomadas em atenção ao aviso dado.

Responsável por monitorar o radar interferométrico, que alerta sobre as alterações estruturais captadas nas barragens e que podem representar riscos, Tércio Andrade Costa, corroborou o depoimento do colega engenheiro ao dizer que também informou a Vale, por meio de seus supervisores diretos, de que a mineradora sabia de irregularidades no local, dadas as movimentações suspeitas aferidas pelo radar.

Saldo positivo

Para o presidente da CPI, deputado federal Júlio Delgado (PSB/MG) e os demais membros, os órgãos públicos do Estado e Federais falharam na fiscalização. E as empresas responsáveis pela operação foram criminosas ao não buscar medidas concretas para evitar a tragédia.

Júlio Delgado considerou a audiência exitosa ao considerar o comportamento dos depoentes que, por vezes, não responderam diretamente às perguntas ou foram comedidos em dar informações ao colegiado, além de omitir informações importantes para o andamento das investigações.

Em alguns momentos, como no depoimento de Marcelo Pacheco, diretor financeiro da consultoria alemã TUV SUD, houve contradição como, por exemplo, quando o depoente afirmou desconhecer as comunicações de teor técnico entre os engenheiros da consultoria e a Vale e logo depois descrever o conteúdo dos e-mails trocados com a mineradora.

“Ficou claro que está omitindo propositalmente informações, e que a TUV SUD tem responsabilidade nesse crime. Iremos continuar apurando e convocar quem for preciso para entender as circunstâncias para a emissão açodada do laudo de estabilidade”, destacou Delgado.