Como identificar as Fake News?

No Brasil, a eleição presidencial de 1921 talvez tenha sido a primeira com confusão eleitoral crida por notícias falsas. Foi assim: no dia 9 de outubro, o jornal Correio da Manhã publicou uma carta supostamente assinada pelo candidato mineiro à Presidência da República, Arthur Bernardes. Na carta, ele teria disparado ofensas ao Marechal Hermes da Fonseca, então presidente da República. Bernardes supostamente classificava o Marechal de “sargentão sem compostura”; em outra parte, dizia: “esse canalha precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina”.

No dia seguinte, uma segunda carta falsa, também atribuída a Bernardes e novamente publicada pelo Correio da Manhã, desancava, dessa vez, Nilo Peçanha, concorrente do candidato: “Moleque capaz de tudo”, teria dito.   

As cartas, constatou-se já à época, eram falsas. Bernardes se apressou em negar a autoria; o Clube Militar também atestou a falsificação. Ainda assim, as “cartas” pautaram o debate até as eleições.

Quase 100 anos depois, notícias falsas voltam a assombrar as eleições presidenciais brasileiras, dessa vez, em uma escala muito maior de ameaça, pela forma como as redes sociais (espaço fértil para disseminação de conteúdos apócrifos e difamatórios) se torna cada vez mais presentes na vida de um número maior de pessoas. O próprio presidente Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luiz Fux, alertou, no final do mês de junho, para o risco de as eleições serem anuladas em decorrência da difusão massiva de “fake news”.

Provavelmente não se chegará a tanto, mas a preocupação não é à toa. A disseminação massiva de notícias falsas contribuíram, ainda que por uma pequena margem, para a eleição do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foi uma enxurrada de informações distorcidas e inverídicas, que vão de um falso apoio do Papa a sua candidatura, a boatos e calúnias contra sua adversária, Hilary Clinton.

Frente a essa escalada de problemas, os governos e as plataformas de mídias eletrônicas (Facebook, Twitter, Google, entre outros) iniciaram uma reação ao fenômeno. O Congresso, por exemplo, lançou a frente parlamentar Mista de Enfrentamento às Fake News. Composta por 219 deputados e 12 senadores, o grupo vai articular a aprovação de leis que auxiliem no combate às fake news.

O ministro Luiz Fux, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também vem celebrando termos de compromisso para a criação de uma rede de combate às notícias falsas.

Um dos carros chefes do enfrentamento às fake news são parcerias de apoio às redações de checagem de fatos, também conhecidas como agencias de fact checking.

O Facebook, uma das principais plataformas de redes sociais, celebrou parceria com a Agência Lupa, a Aos Fatos e a France Press.A escolha levou em conta critérios como transparência quanto ao financiamento e metodologia de checagem, apartidarismo e disposição de admitir erros; os mesmos critérios estabelecido pela Poynter Institute, escola de jornalismo dos EUA.

Juntas, as agências analisarão notícias para ver se são falsas ou exageradas. Constatado excesso ou fraudulência, o Facebook impedirá que o conteúdo seja impulsionado por patrocínio e diminuirá em 80% o alcance orgânico.

Além das restrições de alcance da mensagem, o Facebook também exibirá uma mensagem ao usuário que quiser compartilhar o conteúdo, apontando que aquela notícia foi identificada como falsa ou exagerada por uma das agências. Um link para o site da agência levará a pessoa a um texto que explica o contexto da notícia e o motivo de ela ter sido classificada daquela forma.

 

 Fake News: como identificar para não compartilhar?

Cristina Tardáglia, diretora da Agência Lupa, Tai Nalon, diretora executiva e cofundadora da Agência aos Fatos, elaboraram uma lista de dicas para não se confundir com notícias, e ajudar na separação do que é falso do que é verdadeiro, seja no Twitter, no Facebook e ou no Whattsapp. A lista foi publicada originalmente numa reportagem do jornal Estado de São Paulo.

1) Não leia só o título

Uma estratégia muito utilizada pelos criadores de conteúdo falso na internet é apelar para títulos bombásticos. Ler o texto completo é um passo básico para evitar compartilhar fake news. “Às vezes, um título é provocativo, mas ele não necessariamente está sendo honesto com a própria reportagem”, indica Cristina. “Os títulos são feitos para chamar a atenção. Então, você precisa ler o que está escrito para ver se o título se confirma no texto.”

2) Verifique o autor

Ver quem escreveu determinado texto é importante para dar credibilidade ao que está sendo veiculado. “Na checagem de fatos, ver o autor é interessante. A notícia foi assinada por alguém que você nunca viu na vida?”, questiona Cristina. Para Tai, se a matéria é assinada por um repórter, o site demonstra responsabilidade pela qualidade da informação.

3) Veja se conhece o site

Não deixe de olhar a página onde está a notícia. Navegar mais no site ajuda a analisar sua credibilidade. “Investigar que página é essa, ir lá no ‘Quem somos’ e saber se dá para ligar para essa redação e falar com um responsável é fundamental”, afirma Cristina. Na mesma linha de pensamento, Tai acredita que procurar pelo expediente do site e tentar achar o básico sobre a hierarquia da empresa são dicas valiosas. “É preciso saber quem é o responsável legal pelas publicações.” Também vale checar o endereço do site. Segundo Cristina, algumas páginas tentam simular o endereço de um veículo importante, alterando apenas uma letra, um número ou um símbolo gráfico.

4) Observe se o texto contém erros ortográficos

As reportagens jornalísticas prezam pelo bom vocabulário e pelo uso correto das normas gramaticais. Por outro lado, os sites com notícias falsas ou mensagens divulgadas pelo WhatsApp tendem a apresentar uma escrita fora do padrão, com erros de português ou quantidade exagerada de adjetivos. “Os manuais sérios dos grandes jornais orientam o jornalista a não adjetivar quando fizer uma reportagem”, explica Tai. “Se você está diante de um site de notícias falsas, já tem adjetivo no título. Existe uma linguagem que é muito particular do jornalista que não é utilizada em um site de notícia falsa.”

5) Olhe a data de publicação

Identifique quando a notícia foi publicada. Muitas vezes, o texto está simplesmente fora de contexto. “Cansei de ver notícia falsa que na verdade não é falsa, só é velha”, conta Cristina.

6) Saia da bolha da rede social

Para estar bem informado, o eleitor deve ler e acompanhar o noticiário não somente nas redes sociais. “Ele deve fazer um esforço para estar mais informado, encontrando uma nova fonte na qual ele confia e que tenha um bom histórico”, recomenda Angie. “Não espere apenas que as notícias cheguem até você porque você pode ter uma imagem muito distorcida do que está acontecendo.”

7) Tome cuidado com o sensacionalismo

As fake news tendem a conter palavras ou frases que despertam emoções ou mexem com as crenças das pessoas, atingindo um maior potencial de divulgação e compartilhamento nas redes sociais. “Se tiver uma manchete, uma foto, um meme ou um vídeo que comova você, ou que fale diretamente com aquilo que acredita, duvide, porque pode ter sido feito para isso”, avalia Cristina.

 

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