Artigo – Zona de conflito

A decisão do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, de dar prosseguimento a um pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff transformou de vez o cenário político brasileiro em uma zona de conflito. Nesse ambiente, do qual se esperam discussões relativas à democracia e ao desenvolvimento econômico e social do país, os discursos registrados pela mídia nos últimos dias mais lembraram uma luta armada do que um debate sobre a gestão política e administrativa da nação. Entre as palavras e expressões mais usadas pela imprensa nesse período, e que melhor retrataram o momento vivido na capital federal, estão guerra, luta, golpe, vingança, pedidos de paz e afirmações de resistência.

Mesmo distante de reproduzir por aqui as aterrorizantes condições criadas em áreas de confronto militar ao redor do mundo, o conflito instalado nos bastidores do poder no Brasil deve ser visto e interpretado com extrema atenção e cautela, pois ele também tem potencial para gerar miséria, destruição e morte.

Casos como da queda da barragem da mineradora Samarco, em Mariana, da epidemia de microcefalia que assusta e entristece os brasileiros, além do declínio econômico e o crescimento do desemprego são exemplos de como a política interfere negativamente na vida de todos. São consequências trágicas da má gestão e da incapacidade de enfrentar e vencer os problemas que afetam o país.</CW> Eles também são sintomas da crise que imobilizou o governo Dilma, e seus desdobramentos certamente serão influenciados pelo desenvolvimento do conflito político radicalizado. No momento em que o governo federal e demais forças do Brasil deveriam dedicar-se integralmente às vítimas e consequências desses episódios, grande parte das energias são depositadas em uma disputa interna ao corpo político naciona.

De maneira muito específica, esses fatos relacionam-se à experiência que tive esta semana durante visita de uma missão brasileira a Israel. A convite da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), e com todas as despesas pagas pela entidade, um grupo de parlamentares esteve no país do Oriente Médio para conhecer o funcionamento de sua administração e do seu sistema político, além de participar de debates sobre política externa, inovação tecnológica, desenvolvimento agrícola e ajuda humanitária, entre outros.

Conhecemos projetos inovadores em áreas como energia, segurança cibernética, educação e saúde, estivemos com israelenses e palestinos, e também pudemos observar vários aspectos sobre a evolução de um povo acostumado com a tensão histórica que acompanha suas relações regionais. Uma das coisas mais importantes que compreendi sobre a forma de ação desse povo é que não se resolve uma situação de conflito gerando outra.

Infelizmente, esse não é o caso da política brasileira atual. Muitas vezes motivadas pelo interesse exclusivo no poder, outras em defesa de interesses absolutamente pessoais, as ações de grande parte das lideranças políticas nacionais tem servido apenas para radicalizar o discurso, acirrar os ânimos e nos distanciar cada vez mais das soluções para as necessidades mais profundas do nosso povo.

Estamos presos a um círculo vicioso em que conflitos geram outros conflitos. O desejo de vingança cega os agentes políticos e os problemas vividos pela população ficam em segundo plano. Nessa guerra, as palavras e as ações causam tantos estragos quanto as bombas que explodem constantemente no Oriente Médio.

Júlio Delgado 07/12/2015