Artigo – Um ano para ser lembrado

Grande parte dos brasileiros terá poucos motivos para sentir saudades de 2015. Durante este ano, conhecemos uma das mais agudas crises econômicas da nossa história, e os escândalos de corrupção devastaram a credibilidade nacional. Paralelamente, autoridades e empresários deram exemplos de descaso ao permitir e colaborar com eventos como a tragédia de Mariana e a assustadora epidemia de microcefalia em diferentes regiões do país. Em questão de meses, rompemos com um otimista ciclo de desenvolvimento, por meio do qual chegamos a acreditar em um país mais justo econômica e socialmente, para nos depararmos com a realidade de uma nação subdesenvolvida, com carências estruturais evidentes e inegáveis sinais de pobreza.

Esse rápido e traumático declínio, entretanto, não pode ser considerado exatamente uma surpresa. Há algum tempo vários setores da sociedade denunciavam as irresponsabilidades do governo no controle das finanças públicas, além da promiscuidade que ditava as regras no jogo político comandado pelo Planalto. Inesperada, certamente, foi a extensão do caos gerado pelo populismo maniqueísta das gestões petistas no Estado brasileiro. O verdadeiro cenário estava maquiado por manobras fiscais, como as pedaladas, e pela abusiva propaganda estatal, que foi base para o estelionato eleitoral construído na campanha à reeleição da presidente Dilma no ano passado.

A desvalorização da Petrobras, e de toda a cadeia produtiva ligada a ela, ficará registrada este ano como um dos símbolos da gestão perdulária no governo federal. O desemprego e a inflação crescentes, além dos intermináveis esquemas de corrupção revelados nos últimos meses, são outra ponta desse modelo inconsequente, comodamente instalado no trono petista. Sustentados pelo discurso de um governo popular, líderes do partido que elegeu os dois últimos presidentes da república usaram a estrutura federal, e recursos públicos, para financiar a máquina partidária, seus projetos pessoais e de poder.

Embora pareça contraditório, é na revelação e na apuração desses casos que está o maior legado de 2015. Foi neste ano que a sociedade agiu com firmeza, exigiu ações, e deu suporte a agentes políticos e instituições públicas para que a corrupção fosse combatida com seriedade. Apesar das inúmeras dificuldades, o Congresso Nacional ensaia uma reação. Setores da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal também mostraram sua força na investigações, prisões, julgamentos e condenações de políticos influentes e empresários poderosos. Fatos poucas vezes vistos na história deste país.

Realmente, 2015 tem motivos de sobra para ser esquecido. Mas ele também apresentou suas qualidades, e ignorar seus ensinamentos é abandonar nossa própria história. A dura realidade com a qual nos deparamos este ano também nos mostrou que a imoralidade não é um padrão de comportamento nacional. Temos instituições que funcionam, setores da sociedade realmente comprometidos com o país, e um território cheio de riquezas, materiais e humanas. Precisamos somente de boa gestão. Por isso, continuo acreditando no Brasil. Tenho convicção de que em 2016 os desafios políticos serão enfrentados com maior energia ainda, e, dessa forma, vamos começar corrigir o plano econômico e reconstruir os caminhos do desenvolvimento.

 

Júlio Delgado 26/12/2015