Artigo – Tragédias e transformações

Desde sua ocorrência, em novembro passado, o rompimento da barragem da mineradora Samarco, em Mariana, não deixava dúvidas de que a extensão de suas consequências seria conhecida aos poucos, por longo período de tempo. E para aqueles que estudam e analisam eventos dessa grandeza, não era difícil imaginar que a maior tragédia ambiental do Brasil acumularia elementos suficientes para ser reconhecida na história também por seu caráter transformador, em diversos procedimentos da nossa sociedade. Nada mais normal considerando-se a imensa lista de danos provocados pelo desastre, sejam eles humanos, naturais ou materiais.

Algumas dessas transformações estão em curso, por exemplo, no processo que apura se houve crime ambiental no episódio, e nas ações do Ministério Público e da Justiça de Minas em relação à gestão da mineradora nas demais barragens da região. Os mesmo ocorre em outras investigações conduzidas por diferentes instituições estaduais e federais, e que devem gerar ainda mais repercussões para o caso nos próximos meses. Os resultados dessas ações certamente terão impacto nas legislações e, consequentemente, nos padrões de atuação das organizações privadas e dos órgãos públicos ligados ao tema.

Essa reflexão me levou a vislumbrar quais mudanças poderiam ocorrer no ambiente político, que é o lugar onde a lógica das coisas pode ser alterada. Embora não existam dúvidas em relação às responsabilidades da mineradora nesse triste e lamentável episódio, também é inquestionável que a ação (ou a omissão) de agentes políticos no poder influenciou o rumo dos acontecimentos. É nesse espaço, portanto, onde o imprevisível pode ser tornar visível, e os interesses coletivos podem e devem ser resguardados efetivamente.

Recorri a experiências e ensinamentos que adquiri na convivência com meu pai, o ex-deputado Tarcísio Delgado, que foi duas vezes prefeito de Juiz de Fora. Em 2014, atendendo a um chamamento do partido, ele foi candidato a governador de Minas pelo PSB. Um dos temas abordados em sua campanha foi a preocupante situação das mineradoras no Estado. Ele levantou o debate sobre a falta de controle e fiscalização, além da importância da mineração, tanto em termos econômicos, já que o minério é uma riqueza extremamente importante para o setor produtivo, quanto em relação às questões humanas e ambientais.

Infelizmente o assunto não repercutiu entre os candidatos. O tempo mostrou que essa omissão foi grave erro. As manifestações de Tarcísio Delgado, entretanto, comprovam que o debate político proporcionado pelo sufrágio popular é o principal fórum de discussões de temas relevantes para a coletividade. Apesar da força exercida pelo marketing e pela publicidade nas campanhas, o que muitas vezes interfere na credibilidade e desvirtua o processo, o período eleitoral é uma referência legítima para a população conhecer e avaliar diferentes aspectos da administração pública. Assim como fonte de pautas a serem adotadas como prioridade pela sociedade no decorrer do tempo. O problema é o espetáculo excessivo criado em torno das eleições.

Fatos recentes, como o indiciamento de executivos e funcionários das empresas proprietárias da Samarco, têm mostrado que a tragédia de Mariana não vai passar em branco pela Justiça. Poderemos discutir futuramente se as transformações foram realmente satisfatórias, mas com certeza elas irão ocorrer. O mesmo se passará com o ambiente político. A sociedade vai cobrar mudanças e os personagens envolvidos têm obrigação de realizá-las.

Júlio Delgado 16/01/2016