Artigo – Sinal de alerta

O Brasil vai viver nos próximos dias uma das experiências mais importantes de sua história. Em duas semanas, começam os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O clima, no entanto, não é de festa. Faço parte de um time de brasileiros preocupados com a segurança durante o maior evento esportivo do mundo. Além do momento de grande instabilidade política e econômica que aflige o país, a possibilidade de uma ação terrorista durante os jogos é real e deve ser tratada com extrema seriedade pelas autoridades nacionais e estrangeiras envolvidas na competição.

Na última quinta-feira (21/07), o jornal O Estado de S. Paulo estampou na manchete: “Estado Islâmico dá dicas na web de como atacar no Rio”. A reportagem mostrou que haveria uma campanha na internet promovida pelo Estado Islâmico (EI) para incentivar pessoas a realizarem ataques terroristas durante as olimpíadas. Além de disseminar métodos violentos, de acordo com o jornal, ainda sugerem alvos.

No mesmo dia, a Polícia Federal prendeu dez pessoas suspeitas de planejar um ato violento, que seriam simpatizantes de um grupo islâmico. O caso não foi esclarecido, mas demonstra que existem brasileiros dispostos a aderir à onda de terror que assombra o mundo.

O bárbaro exemplo do ataque em Nice, na França, mostra que qualquer suspeita deve ser considerada. No último dia 14, um homem atropelou com um caminhão parte da multidão que assistia à queima de fogos da Festa da Bastilha, data cívica francesa. O motorista foi capturado e morto pela polícia, mas deixou 84 mortos e mais de 200 feridos. Dias depois, o Estado Islâmico reivindicou a autoria do atentado.

No Brasil, as olimpíadas devem reunir 10,5 mil atletas de 206 países. O público esperado é de 7,5 milhões de pessoas, dos quais entre 500 a 600 mil são turistas, 50 mil voluntários e 14 mil profissionais da organização. Ao todo, foram credenciados 25 mil jornalistas de mundo todo. Nas cerimônias de abertura e encerramento, são esperados 100 chefes de Estado e autoridades. O ambiente é ideal para os radicais que espalham o terror com ações midiáticas, nas quais conquistam publicidade para as causas desumanas que defendem.

Vale lembrar o caso que ficou registrado como a Tragédia de Munique. Nas olimpíadas que aconteceram na cidade alemã, em 1972, onze integrantes da delegação de Israel, um policial alemão e cinco terroristas morreram em operação do grupo palestino Setembro Negro. O fato não tem ligação com o contexto atual, mas nos remete a um trauma da humanidade que não pode ser repetido.

O evento criado para celebrar a unidade global através do esporte sofre as consequências da insegurança internacional e das incertezas nacionais. A violência urbana e os altos índices de criminalidade contribuem para aumentar as dúvidas quanto à capacidade do Brasil para realizar os jogos olímpicos em segurança. Com certeza, será um dos maiores testes enfrentados pelo Brasil em termos de relações internacionais.

O momento é de muito trabalho para que as olimpíadas repitam sucesso que o Brasil tem alcançado na organização de grandes eventos desde a Copa das Confederações, em 2012. Depois disso, o Rio de Janeiro foi palco da Jornada da Juventude, que contou com a participação do Francisco, em 2013, e da Copa do Mundo, em 2014.

Do ponto de vista da segurança, a colaboração dos Estados Unidos, Inglaterra, França e Israel em treinamentos e até no envio de especialistas em inteligência e no combate ao terror não diminuem a nossa preocupação com radicalismo islâmico. Sem desespero, mas com o sinal de alerta ligado ininterruptamente.

 

Júlio Delgado 23/07/2016