Artigo – Novos tempos

A eleição do deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) para presidir a Câmara dos Deputados gerou grandes perspectivas para o futuro do Parlamento brasileiro. Não é exagero dizer que o processo de escolha do substituto de Eduardo Cunha acendeu a esperança de novos tempos para o Poder Legislativo. Esse otimismo não está depositado especificamente no nome escolhido pelos parlamentares. Ele é fruto principalmente do processo político sério e transparente que legitimou o deputado do Rio de Janeiro para comandar a Casa até fevereiro de 2017.

O componente mais importante dessas eleições internas na Câmara foi o comprometimento dos deputados. Em função disso, prevaleceu o objetivo de estabelecermos condições para que o Legislativo possa resgatar sua autoestima e voltar a ser reconhecido pela sociedade. Esse foi o estado de espírito que pautou a minha atuação, da bancada do meu partido e de grande parte dos deputados durante as discussões sobre a sucessão de Cunha.

A eleição de Maia não é resultado de uma operação arquitetada para atender interesses do governo, de um partido, grupo político ou personalidade específica. Ela é produto de um debate democrático totalmente focado nos propósitos e necessidades do país.

Fui candidato ao cargo em 2015, em eleição vencida por Eduardo Cunha e que hoje todos os cidadãos pagam o preço. Aquele acontecimento marcou a ascensão do parlamentar e também foi a introdução da crise que atingiria o Brasil. Meses depois, a Operação “Lava Jato” revelou as intenções e procedimentos que Cunha utilizou para conquistar espaço no cenário político brasileiro.

Meu nome chegou a ser indicado pelo PSB para ser candidato novamente nessa eleição, mas decidimos fazer um gesto em favor do projeto de início de reconstrução do Legislativo, que era representado na última semana pela candidatura de Rodrigo Maia.

A primeira consequência desse novo momento da Câmara foi a desarticulação da bancada de sustentação de Cunha. Foi consenso entre os partidos que apoiaram o deputado do DEM a exigência de que o processo de cassação do parlamentar afastado transcorreria sem interrupções e sem manobras. O placar da eleição, com diferença significativa, foi um indicativo dessa disposição. Os 285 votos obtidos por Maia, contra 170 de Rogério Rosso (PSD-DF) somaram as forças dos que querem essa página virada na história do Parlamento.

A expectativa se confirmou na reunião da Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) que julgou recurso de Cunha, contra a cassação, na última quinta-feira. A CCJ rejeitou a argumentação da defesa, e o processo de afastamento definitivo do ex-presidente já pode ser votado em plenário. Com esse caso resolvido, poderemos finalmente nos dedicar aos temas de verdadeiro interesse do país. A pauta econômica, o desemprego e a difícil situação financeira de Estados e municípios, entre outros assuntos, precisam voltar a ser protagonistas nos microfones do plenário e demais órgãos do Legislativo.

A Câmara tem imensas possibilidades de deflagrar um novo ciclo e voltar a atuar de forma independente, como exige o sistema democrático. Temos oportunidade de reconciliação sincera com a população depois da trágica e vergonhosa gestão de Eduardo Cunha. A eleição de Rodrigo Maia não encerra as diferenças ideológicas nem elimina divergências nas propostas que cada partido tem para o país. Ao contrário disso, ela reforça o papel fundamental que cada agremiação exerce em nossa estrutura política. Nossa obrigação agora é levar essas discordâncias para dentro do Parlamento e, democraticamente, compartilhar pensamentos para fazermos o melhor possível pela população do nosso país.

 

Júlio Delgado 16/07/2016