Artigo – Mobilização pela saúde pública

Sempre que discutimos sobre questões relacionadas à vida social, ou qualquer forma de existência conjunta, a única opinião capaz de encontrar unanimidade é que a ação e a participação dos indivíduos são condições básicas para as conquistas dos interesses gerais. Do ponto de vista teórico, existe farta documentação e infindáveis exemplos para justificar a ideia. Reproduzir esse pensamento na prática e levá-lo à nossa vida cotidiana, entretanto, é outro problema.

As principais referências para esse tema surgem naturalmente do ambiente político, pois as condições da organização coletiva estão na essência da matéria. Mas elas também podem ser encontradas em outras áreas, como na epidemia de microcefalia ligada ao zika vírus, que continua crescendo assustadoramente no Brasil. As causas dessa crise na saúde pública são muitas, mas uma coisa é certa e representa grande teste para a sociedade brasileira: a superação depende de mudanças em nosso comportamento, coletivamente.

Segundo o Ministério da Saúde, o número de casos de microcefalia subiu 10,2% somente na última semana e já contabiliza 3.893 ocorrências, em 21 estados. A situação é tão crítica que despertou a atenção de autoridades sanitárias e de saúde internacionais. No dia 15 de janeiro, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos divulgou recomendação para que as gestantes do país evitassem viajar ao Brasil e outras 13 nações da América Latina. Nesta semana, baseadas em informações fornecidas pelo governo brasileiro, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) emitiram um alerta global sobre a epidemia de zika vírus e suas consequências.

No comunicado, as instituições apresentam informações sobre sintomas, contágio e tratamento, e argumentam que a disseminação desse tipo de enfermidade é determinada por uma complexa dinâmica de fatores ambientais e sociais. Além disso, reforçam que a mudança de comportamento é um elemento crucial para combatê-la.

Ainda não existem dados consistentes sobre todas as complicações provocadas pela doença, não há vacina para o vírus e nem cura possível. A prevenção depende exclusivamente de evitar picadas e eliminar as condições para reprodução do mosquito Aedes aegypt. Ela está sujeita, portanto, à ação das pessoas para garantir sua proteção individual e das comunidades.

Evidentemente, não podemos ignorar as responsabilidades das instituições públicas nacionais nesse esforço. Tanto a União, quanto estados e municípios exercem funções fundamentais nos trabalhos de prevenção, na distribuição de informações e no desenvolvimento de pesquisas científicas relacionadas ao tema. Mas a participação individual é imprescindível.

Alguns epidemiologistas já alertam para o risco de uma explosão de contaminações durante o carnaval em virtude das grandes aglomerações de pessoas combinadas com aumento da sujeira nas ruas e forte incidência de chuvas. O governo ainda não mostrou força e competência para chamar a atenção necessária da sociedade. Talvez isso também seja reflexo da sua própria falta de credibilidade, mas não podemos esperar. A mobilização coletiva em torno dessa causa é mais que urgente e precisa acontecer a partir da própria população.

Júlio Delgado 23/01/2016