Artigo – Lágrimas de crocodilo

Bateu o desespero e o deputado afastado Eduardo Cunha renunciou à presidência da Câmara dos Deputados na última quinta-feira.

Ciente de que o fim de sua carreira política está cada vez mais próximo, o parlamentar adotou mais uma atitude desonrosa para tentar, no mínimo, prolongar seu mandato.

Cunha abandonou o cargo de presidente como última esperança para reunir alguma força, suportar a pressão da opinião pública e, se possível, fugir da cassação.

Ao anunciar a renúncia, Cunha fez um discurso de vítima e ficou com a voz embargada como se estivesse chorando. Se chorou, derramou lágrimas de crocodilo.

O maior medo do deputado neste momento é perder o foro privilegiado. Por isso, é esperado que ele tente o impossível para evitar que seus processos criminais saiam do Supremo Tribunal Federal (STF) para as mãos do juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Desta vez, Cunha busca ganhar tempo com o processo eleitoral interno na Casa.

Sua verdadeira intenção, entretanto, é deixar um preposto em seu lugar para impedir que seu processo de cassação seja enviado ao plenário na próxima semana.

Cunha usa o calendário da mesma forma que manipula o regimento interno da Casa. Ardiloso, calcula cada movimento. Neste momento, o tempo corre a seu favor.

A partir do dia 15, a Câmara entra no chamado recesso branco (sem agenda de votações em plenário e nas comissões) que será seguido das Olimpíadas e do início do processo eleitoral nos municípios.

Com o Congresso esvaziado e um aliado comandando a pauta política, ele ganharia fôlego e poderia arrastar seu mandato, no mínimo, até o final do ano.

O deputado afastado espera contar com o apoio direto do Palácio do Planalto para eleger um dos seus aliados. A solução seria vantajosa para o governo de Michel Temer porque pode acabar com a instabilidade que tem paralisado a Câmara.

Seria uma saída e tanto para o aflito parlamentar, que já é réu em dois processos por corrupção no STF, onde responde também a outros inquéritos relacionados com a Operação “Lava Jato”.

A governabilidade almejada por Temer, que é necessária para superarmos a crise econômica, não pode ser conquistada às custas de mais traumas no sistema político.

Não podemos permitir que a Câmara dos Deputados seja presidida por outro parlamentar que tenha aversão à ética e descaso pelo dinheiro público.

A Câmara tem a responsabilidade de representar toda a sociedade e não um réu por corrupção. Cunha desrespeitou seu mandato e, de acordo com a legislação, deve ser cassado.

Um parlamentar com tantas suspeitas não tem legitimidade política ou moral para continuar exercendo o cargo. Cabe à polícia e à Justiça se ocupar dos atos de um cidadão que construiu um império utilizando poder político e dinheiro público.

Mesmo que seja para um mandato tampão de seis meses, temos o dever de escolher um novo presidente da Câmara comprometido com os interesses da população brasileira.

O sucessor de Cunha precisa ser alguém disposto a começar a resgatar a reputação do Parlamento, que foi arrastada para o mar de lama na gestão do deputado afastado. Há muito a ser feito e não temos tempo a perder.

Dediquei boa parte dos últimos dias a conversas com colegas. Se agirmos com cautela, responsabilidade e consciência, poderemos resgatar um pouco da legitimidade que o Poder Legislativo perdeu diante da sociedade brasileira nos últimos tempos.

Não temos tempo a perder. Precisamos estar alertas diante do risco de elegermos um candidato simpático a Cunha, o mais perigoso dos crocodilos que já ostentou o broche de deputado federal.

 

Júlio Delgado 09/07/2016