Artigo – Irresponsabilidade moral

Todos os brasileiros sabem que as aflições econômicas sentidas atualmente por nós, comunitariamente, são resultado do descontrole das contas públicas e da ineficiência administrativa do governo federal. Todos os brasileiros também sabem que a presidente Dilma Rousseff utilizou as chamadas pedaladas fiscais em uma infantil tentativa de esconder os resultados ruins da economia em sua gestão. Mas o que os brasileiros ainda não sabiam é que os efeitos da irresponsabilidade do governo podem ser cobrados já em 2015 e agravar a situação não só neste ano perdido para a economia do país, mas também no futuro próximo.

O fato é que as pedaladas serviram apenas para empurrar com a barriga um rombo orçamentário sem solução mágica. É como se o governo tivesse usado o cheque especial para pagar suas dívidas, embora ele não disponha desse instrumento. Agora, a presidente corre o risco de ser obrigada a pagar, neste ano, a dívida mascarada nas contas de 2014 com verbas dos bancos estatais. Como resultado, o déficit do governo nas contas de 2015 pode chegar a estrondosos R$ 110 bilhões.

A decisão cabe ao Tribunal de Contas da União (TCU), que rejeitou as declarações financeiras da gestão de Dilma Rousseff referentes a 2014. E, independentemente da avaliação final, devemos nos preparar para um longo período de dificuldades. Para quitar todos os seus débitos acumulados, o governo extinguiu os investimentos no desenvolvimento da nossa estrutura produtiva, e reduziu o financiamento de programas e serviços essenciais.

Em uma explicação muito simples, a população e os setores geradores de emprego e renda estão sendo asfixiados pela política econômica. E a recuperação desse trauma custará tempo.

Somando-se a esses fatores nossa excessiva carga tributária, temos uma equação em que a sociedade perde também cumulativamente. Segundo a receita federal, os cidadãos brasileiros pagaram, em 2014, R$ 1,84 trilhão em impostos, que correspondem a 33,47% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional. Ainda assim, a dívida da União ficou em aproximadamente R$ 50 bilhões.

Como se não bastasse termos um dos maiores índices tributários do mundo e já sofrermos os efeitos da crise, por exemplo, na inflação crescente e na rápida desvalorização do real, neste ano, e provavelmente em 2016, as riquezas das pessoas transferidas compulsoriamente ao governo federal serão usadas basicamente para pagar as dívidas colecionadas nos últimos anos. Praticamente nada será aplicado no crescimento do país.

Esse é o verdadeiro retrato da irresponsabilidade. As pedaladas foram, sim, uma manobra para esconder a real situação das contas públicas e impedir que a presidente Dilma fosse derrotada nas eleições do ano passado. O Planalto sabia que o Brasil iria mergulhar em uma crise séria e penosa para todos.

Entre reconhecer seus erros e oferecer ao país uma oportunidade de debater possíveis soluções, democraticamente durante o período eleitoral, o partido da presidente preferiu agarrar-se ao poder, mesmo ao custo do sofrimento do seu povo. Ainda que a presidente Dilma e o Partido dos Trabalhadores não sejam condenados por crimes contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, ambos já foram condenados pela população brasileira por sua indiscutível irresponsabilidade moral.

 

Júlio Delgado 31/10/2015