Artigo – Eu tenho vergonha

Em seus quase 200 anos de existência, a Câmara dos Deputados esteve à frente de muitos dos acontecimentos mais importantes na história da formação e do desenvolvimento do Estado brasileiro. Ainda que severamente questionado pela sociedade em diversos momentos, o Poder Legislativo é um dos principais responsáveis pelo estabelecimento, no Brasil, de uma das mais sólidas democracias do mundo. De maneira geral, e olhando sob o ponto de vista republicano, o resultado do trabalho exercido pela Câmara ao longo do tempo é extremamente positivo para o país.

Mas também não podemos ignorar que esse saldo favorável está eternamente manchado por diversas situações imorais protagonizadas por parlamentares. Casos de corrupção, por exemplo, são fartos nesses quase dois séculos de funcionamento do parlamento e justificam o descrédito da classe política nacional diante da opinião pública. Poucos episódios, entretanto, foram tão vergonhosos quanto o que estamos vivendo atualmente em função do deputado Eduardo Cunha.

Apesar de afastado de suas funções pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Cunha continua sendo uma ameaça ativa e poderosa contra os interesses do Brasil. Ele mantém forte influência sob número considerável de deputados e usa esse poder para obstruir os trabalhos da Casa e atrapalhar todas as investigações que envolvem seu nome na Justiça e no Legislativo. Consequentemente, paralisa a Câmara e impede que a instituição trabalhe nas transformações que o país precisa para sair da crise econômica.

A presença de Eduardo Cunha na vida política brasileira está em completo descompasso com a vontade popular. Pesquisa recente do Instituto Datafolha mostrou que quase 80% da população querem o afastamento definitivo do deputado. Ainda assim, ele tem apoio de 50% dos parlamentares que analisam o pedido de extinção do seu mandato no Conselho da Ética e conserva número expressivo de ferrenhos defensores na Casa.

Inquestionavelmente, Cunha e seus companheiros estão construindo um dos eventos mais humilhantes a serem registrados na história do Congresso Nacional. Seu desprezo com a instituição ficou flagrante no depoimento prestado esta semana ao Conselho de Ética. Com a arrogância habitual, o deputado afastado insistiu em um discurso fantasioso. Afirma que contas registradas em seu nome na Suíça, e que movimentaram mais de R$ 400 milhões entre 2007 e 2014, não são, de fato, suas.

Segundo Cunha, esse dinheiro pertence a um personagem jurídico denominado trust, do qual ele é apenas beneficiário. Mas não explica, por exemplo, quem consumiu a garrafa de vinho de mil dólares, paga com dinheiro de uma dessas contas em recente viagem com a família à Europa: ele ou o trust? Em vez de responder aos questionamentos, o deputado usa os procedimentos que lhes são íntimos. Manipula sua tropa para atacar aqueles que querem fazer o processo caminhar com seriedade e transparência.

Por isso, afirmo que tenho vergonha da Câmara dos Deputados de hoje. No lugar do debate de ideias e de conceitos de gestão pública, prevalece um jogo sujo e totalmente distante dos valores e objetivos do povo brasileiro. A Câmara atual não representa a população. Defendi e continuo defendendo eleições gerais ainda este ano como a melhor solução para nossa crise política. A saída mais eficiente é a formação de um novo governo e nova Câmara dos Deputados. Mas se isso não acontecer, não me intimidarei com qualquer tipo de ameaça. Continuarei trabalhando para dar um fim a esse espetáculo constrangedor.

 

Júlio Delgado 21/05/2016