Artigo – A voz das ruas

Esta semana o Instituto Ibope divulgou mais uma pesquisa de avaliação popular sobre o governo Dilma Rousseff. Como era de se esperar, a insatisfação dos brasileiros segue em patamares elevados, e seguramente refletem o sentimento das pessoas diante das penosas crises política e econômica que envolveram completamente o país nos últimos meses. Segundo o levantamento, feito entre os dias 4 e 7 deste mês, 70% dos eleitores consideram a gestão petista ruim ou péssima para o Brasil.

Seria impossível imaginar situação diferente quando estamos diante de um quadro pintado com inflação e desemprego crescentes, corrupção escandalosamente infiltrada no alto escalão do poder e perspectivas econômicas ainda mais desoladoras para o futuro próximo. Em cenário tão caótico, certamente indignação é a palavra que define com mais clareza a opinião de grande parte dos brasileiros sobre o governo federal.

A relação de malefícios gerados pelo modelo petista na sociedade é extensa. Suas consequências estão expostas nos mais diversos setores, sejam eles econômicos ou sociais, e de formas diferentes alcançam todos os cidadãos, especialmente aqueles que mais necessitam de apoio do Estado para sobreviver. Mas um dos mais graves resultados produzidos pela incompetência administrativa e pela aviltante imoralidade política incentivada no atual governo é a indiferença e a apatia que ameaçam contagiar os indivíduos coletivamente.

As manifestações registradas nesta semana, a favor e contra o impeachment da presidente Dilma, são um retrato desse alarmante momento. Independentemente dos motivos que levaram as pessoas às ruas, os movimentos mostraram menor disposição dos brasileiros para se mobilizar e atuar no processo político.

As intermináveis revelações sobre esquemas de corrupção, o obsceno jogo político que imobiliza o Congresso Nacional e a instabilidade financeira jogaram os brasileiros em uma rotina repleta de mensagens negativas e estão provocando um abatimento generalizado na população.

Por mais que seja compreensível e justificável, esse comportamento é um inimigo que precisa ser combatido com urgência. A mobilização popular provou sua força nos últimos anos e mostrou que é o principal fator transformador das relações e das ações políticas no Brasil. Os maiores avanços registrados no país nesse período foram conquistas das vozes das ruas. Por outro lado, quando o povo se cala, o caminho é muito mais lento e obscuro.</CW>

Ainda que encorpadas e resistentes, as crises não são insolúveis. E mesmo que a conta gotas, algumas alternativas surgem como esperanças para aqueles que continuam acreditando no Brasil. O processo de impeachment da presidente Dilma e os movimentos em favor do afastamento de Eduardo Cunha do cargo de presidente da Câmara dos Deputados são exemplos dessa movimentação.

Os dois casos mostram que o país não está paralisado, está letárgico. E para superarmos essa condição, é imprescindível que os brasileiros reapresentem suas vozes. Essa é a energia que estimula e faz funcionar o sistema democrático. E é através dela que os resultados serão construídos. A vontade popular, expressa com clareza e força, será determinante nos próximos meses para indicar que rumos iremos seguir.

 

Júlio Delgado 19/12/2015